Sobre Estrelas e Tsurus


Enamorada pela perspectiva de uma nova vida, pegou folhas brancas, um pouco de paciência e pôs se em um longo exercício de dobradura. Estava com as mãos aflitas que não davam conta de tantos detalhes - Mas não tá dando certo isso aqui, o que tem de errado? Se sentia um pouco origami. 



Hoje em quanto lia um texto de uma amiga, que falava coisas absurdamente íntimas, me dei por conta de algo: Sou subjetiva demais quando queria ser direta e direta demais quando quero ser subjetiva. Não vamos ao ponto ainda, tenho muito o que dissertar sobre coisa alguma. 

Me peguei lendo Piauí, às 5 da manhã de uma madrugada de domingo pra segunda, com uma fome feroz de sei lá o quê. Lia aquilo como se todos os problemas do mundo pudessem ser resolvidos com o término do artigo. Não tinha luz, por isso estava suada, abraçada em uma luminária de led rindo sozinha na sala. Havia acabado a bateria do celular - Hoje não teria como falar com ele.

E é sobre ele que esse texto fala. Faz tempo que não quero me envolver. Faz tempo que prometo a mim mesma não me deixar levar pelas emoções. Faz muito tempo, o quê - Uns cinco anos? Faz tempo que prometo pra mim mesma que dessa vez vou ser apenas uma vagabunda barata que se aproveita do outro como um objeto. Mas não sei fazer isso, não sei como não me envolver, não sei como usar e deixar.

Não sei como dormir sem imaginar uma vida a dois, assim como não sei acordar e não desejar aqueles olhos do meu lado. Quando estava fitando o mar na praia calma do litoral gaúcho, vi na beira da areia uma garota com um coração em chamas, que desejava explodir o mundo inteiro sem piedade. Mas foi quando conheci aquela criatura agradável de fala baixa e suave.

Uma calma, um sorriso sincero, um olhar meio perdido - De criança que nasceu faz pouco e faz descoberta das pequenas coisas. Eu estava entretida vivendo minha vida de ilusões, eu não queria companhia, não queria ter que olhar pra alguém e desejar esse alguém. A muito tempo eu dizia: Dessa vez não, menina, dessa vez não. Mas o que o destino faz com a gente, não tem como explicar. Ele olhava para minha mãos enquanto trabalhava.

Não havia nada de especial nisso. Não havia nada de especial em apenas olhar. Mas não bastava isso. Precisava conversar, chegar perto e experimentar um pouco. Quem sabe colocar os dedos, puxar pra cá e pra lá. Enfiar-se onde não era chamado só pra dar saudade depois. Pra quê isso. Quando ele se foi, parecia um navio de partida.

Faria mil tsurus pra tê-lo ao meu lado por alguns minutos e repetir a dose de morfina. Faria mais mil pra tê-lo por algumas noites para definhar de vez o que sinto por outros. Faria mais mil, por fim, para vê-lo crescer ao meu lado. Não há nada de errado nisso. Sinto é pena das minhas mãos que sofreriam com tendinites desastrosas. Por algumas pessoas vale a pena sofrer. 

Sinto saudade pelo que não começou. Sinto saudade pelo que poderia ter acontecido se não fosse a situação na qual nos encontramos. Fui um pouco cruel e menti sobre ser tão madura. Fui um pouco mentirosa quando disse que não pensei em nada sério e fui ainda mais quando te dei adeus pela última vez. Prometi a mim mesmo não ligar, não responder, não dar bola. Mas cá estou escrevendo sobre isso. Sinto a falta daqueles olhos de mar recuado, de maresia, de pele salgada com gosto de inquietude. Sinto falta dos pés na areia, sinto falta do cheiro e sinto falta da grama. Não sinto falta do passado distante porquê não me dói mais. Sinto falta desse passado recente, quase um presente, que não consigo lidar.

Mas calma, que só ela, a Gratidão - Deu as caras na hora da despedida. É uma trama quase invisível de carinhos. Talvez um dia possamos estar cara a cara novamente, fazer estrelas com aquele papel azul que não tinha no dia. Não quero dar adeus de novo.

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 - Por fim, todos me dizem "O Cosmia é bem pessoal não é? Você fala sobre você mesma lá?" Sim leitor curioso, eu falo. E sim leitor curiosíssimo, os textos são todos meus. Leiam o primeiro texto e talvez entendam melhor essa bagunça.